O emergir do jornalismo-cidadão
O quinto poder ou o grito da revolta
Após atenta leitura de um pequeno livro sobre o “Quinto poder em defesa do futuro cidadão”,
e não obstante a publicação datar do ano de 2006, não deixa de ser aliás pertinente
uma pequena reflexão, até porque o tema, além de actual é urgente ser pensado.
No ponto número dois da
publicação de Manuela Espírito Santo é aflorada uma proposta de criação de um
contra-poder que defenda os interesses do cidadão perante a avalanche
informativa que os media actuais
apresentam ao espectador/leitor/ouvinte incauto. Estamos a falar da proposta de
criação do Quinto Poder, um poder
que tenha como principal objectivo a defesa dos interesses do cidadão
consumidor de informação. O famigerado Quarto Poder, tão do gosto dos grandes
grupos económicos que controlam os media
já não serve os propósitos iniciais para os quais nasceu. Esse está
completamente dominado, completamente debaixo da alçada dos magnatas da
comunicação social mundial. A obtenção desenfreada do lucro a qualquer preço
inverteu totalmente a lógica comunicacional subjacente ao chamado quarto poder.
A volta por cima tem de ser dada e já não faltam teóricos da comunicação a
estudar a questão e a lançar temas para o debate.
Ignacio
Ramonet, director do Le Monde Diplomatique, aponta como
principais culpados da morte do Quarto Poder os grandes meios de Comunicação
Social. Na opinião daquele especialista francês, “estes abandonaram a função de
vigilantes do poder estabelecido e de denúncia da traição dos grandes grupos
económicos que dominam o mercado da informação”. Ramonet
vai mais longe e afirma mesmo que “não há muito a Comunicação Social ia
cumprindo o seu papel de contra poder, denunciando as prevaricações dos poderes
públicos, mas agora essa função foi abandonada, chegando mesmo ao ponto de se
aliar ao poder para oprimir o cidadão”.
Nesta linha de pensamento surge
também Roger Silverstone,
professor de Comunicação na London School of Ecomonics.
Para este especialista, denunciar o desvirtuamento do quarto poder perante os
objectivos que se propunha alcançar é necessário. As alternativas têm de
começar já a ser tratadas e delineadas, nomeadamente com o que ele chama de
intervenção cidadã, o tal grito de revolta perante o desagradável panorama incomunicacional a nível mundial. E os efeitos nefastos do
quarto poder desvirtuado começam a se fazer sentir: a credibilidade dos
jornalistas começa a ser posta em causa, uma vez que passam a ser vistos apenas
como vedetas televisivas. O show off
informativo começa a ser confundido como informação pertinente não tendo o
consumidor da informação capacidade de destrinçar o que realmente interessa
para si. Deste modo, ele engole tudo que lhe apresentam,
Para a urgente mudança dos
paradigmas comunicacionais estes dois teóricos apontam alguns caminhos: um
deles tem a ver com necessidade urgente de ser fazer a alfabetização nos media como forma
de controlo do quarto poder. Para Roger Silverstone, “ a sociedade civil tem de estudar os media a fim de impedir que estes
obliterem os pensamentos e manipulem informações. A cidadania do século XXI
requer um grau de conhecimento que até agora poucos têm, requer do indivíduo
que saiba ler os produtos dos media e que seja capaz de lhe equacionar as estratégias”. Ou
seja, o poder do conhecimento ganha neste século uma
importância brutal. Conhecimento é poder, para o bem e para o mal. Separar o
trigo do joio é o objectivo. No entanto, para Ramonet,
“a absoluta liberdade dos meios não deve concretizar-se à custa dos cidadãos.
Este será o século em que a comunicação e a informação estarão nas mãos do
cidadão. Apoderarmo-nos da verdade é o triunfo da democracia”, aponta o
director do LMD.
Marshall McLuhan previu e aconteceu “Quanto mais informação houver
para processar menos se saberá”. No entanto, as novas propostas comunicacionais
apontam no sentido em que, só consumimos a informação que realmente interessa
por intermédio da tal alfabetização dos media. Muita informação não é sinónimo de actualização.
Actualização é, isso sim, retirar da abundante informação conhecimentos
práticos para a construção dos nossos valores e princípios. No fundo para
comunicarmos melhor.
Braga, 19 de Fevereiro de 2008